terça-feira, 14 de fevereiro de 2012




GHOST CAPTORS

CAPÍTULO 2


     Os cães do inferno e o espírito com face de serpente estavam frente a frente. O rosnado dos cães bestiais soava como a agonia das almas, e eles mostravam seus dentes afiados enquanto soturnamente cercavam sua presa. O espírito observava o cão à sua frente com olhos vidrados de réptil, com uma feição que parecia ser a personificação do terror.  Sibilava ritmicamente com seus olhos fixos e cabelos eriçados, enquanto contorcia seus dedos das duas mãos que estranhamente se entortavam, como se uma mão invisível estivesse tentando quebrá-los. Sua feição se enfureceu e sua boca se tornou enorme no instante em que soltou um grito estridente,  seus dedos que se contorciam pareceram se quebrar enquanto se esticavam, se espiralando como uma cadeia de DNA. Os cães começaram a latir e um deles avançou, e o fantasma se desvia no instante em que os dedos esticados começaram a brilhar como metal e formam uma lâmina. Suas mãos se entortaram de tal forma que seus antebraços haviam se tornado duas foices.
     Olhando para o cão que acabou de avançar, percebo que a esquiva da serpente não foi tão boa assim, pois havia um pedaço de carne na sua boca. O sangue tingia de vermelho os dentes brancos e brilhantes. O fantasma emite um som que parecia ser de espanto no instante em que percebe que um pedaço do seu pescoço foi arrancado, vendo o sangue escorrer pelo corpo. Sua expressão aterrorizante se torna ainda mais aguda e seus olhos agora parecem ser capazes de paralisar qualquer ser de medo. Os cães começam a rosnar mais alto, enquanto recuam, intimidados.
     O cão que ainda está com o pedaço de carne nos destes o joga para cima, e abrindo a boca para o alto, pega o naco e o engole de uma vez sem mastigá-lo, olhando para o fantasma em tom de desafio. Compartilhando da confiança do companheiro, os outros cães param de rosnar, e, no exato instante, os quatro avançam de uma só vez na direção do fantasma. Os latidos e uivos guturais não abalam os olhos de serpente do espírito nem por um instante,  é  quando ela dá seu golpe numa velocidade tão impressionante que sequer percebi o corte que partiu em dois um dos cães que atacaram.
     A partir daí, a luta se tornou o embate de animais cheios de fúria e sem nenhum grau de raciocínio. Os cães avançando e latindo ininterruptamente enquanto arrancavam pedaços cada vez maiores do espírito sem nenhuma coordenação,  o fantasma gritava cada vez mais alto a cada mordida. Eu, parado ali olhando, me convencia a cada instante de que estava tendo um pesadelo terrível. Mas, mesmo assim, olhava em volta, estranhando o fato de nenhum ser humano ver de onde vinham aqueles latidos monstruosos e gritos aterrorizantes. A parte da minha consciência que achava que aquilo era um sonho com certeza me impedia de surtar naquele instante.
     Quando olhei novamente para frente, o espírito parou de gritar e começou a reagir. No instante em que um dos cães abocanhou seu braço, o fantasma o moveu de uma forma que arremessou o enorme cão no ar, se soltando do braço, tamanha a inércia do movimento. Mas antes que ele voasse longe e ficasse fora do alcance da lâmina, ele foi decapitado em pleno ar. Antes que a cabeça e o corpo moribundos tocassem o chão, outro cão do inferno foi decapitado, sobrando apenas um, que com seus dentes cerrados no corpo do espectro e com a fúria o impedindo de perceber a desvantagem, foi cortado no meio.



     Neste momento a mulher-cobra estava de costas para mim. Com todos os cães mortos e a luta terminada, o silêncio natural daquele lugar deserto voltou. O espírito olhou em volta, parecendo temer por um instante que as feras voltassem à vida. Então levantou a cabeça e abaixou as lâminas nos braços, fazendo a ponta delas tocarem o chão. Ficou assim, parada, por um tempo que foi suficiente para eu retomar a sanidade e pensar o que diabos eu ainda estava fazendo parado ali olhando. Mas os meus pensamentos fugiram quando uma luz lilás tomou o corpo da criatura, e o seu grito alto e estridente trouxeram de volta o pedaço de pânico que por um instante havia ido embora da minha mente.
     Seu grito foi tão alto e tão agudo, que senti as vibrações do som reverberarem nos meus ossos e quase violar os meus ouvidos. Tentei inutilmente tapá-los, mas o som e a luz se intensificavam cada vez mais, e percebi que os pedaços de carne arrancados estavam se recompondo no corpo mutilado do monstro. Quando o som se tornou alto a ponto de eu me derrubar no chão e cerrar os dentes, enterrando os dedos cada vez mais no ouvidos, o grito e a luz cessaram subitamente e eu abri os olhos, a tempo de ver as mãos da mulher-cobra deixando de ser foices e voltando ao normal.
     Novamente no silêncio do lugar, meus pensamentos voltaram. Fiquei olhando para o espírito, por um instante que pareceu uma eternidade, pensando pra que lado iria correr. O ser, então, olha por cima do ombro e me encara direto nos olhos, como se acabasse de se lembrar que eu estava ali o tempo todo.
Senti minhas pernas se transformando em gelatina quando tentei me levantar e um frio glacial subindo pela espinha, e qualquer ideia ou resquício de cérebro em mim se transformou num medo tão absoluto que eu senti que “medo líquido” ia começar a escorrer pelas minhas calças. Tentei dizer ou gritar qualquer coisa, mas até o ar nos meus pulmões pareceram ficar paralisados de medo, me deixando mudo.
     Então, eu escuto novamente a voz misteriosa. “Cerufra”, disse a voz tranqüila por trás de mim, no instante em que a mulher-cobra deixou de encarar meus olhos e olhou por sobre a minha cabeça. O pânico foi embora por um instante e eu me virei para ver o que estava atrás de mim, e vi duas crianças que aparentavam ter menos de dez anos de idade, loiros e usando roupas brancas. Cada um deles tocou um dos meus ombros e eles disseram, em uma só voz:
     - Te ajudaremos com isso, não se preocupe.
     Asas surgiram nas costas de ambos, brilhando como se fossem feitas de luz, e novamente falaram ao mesmo tempo:
     - Feche os olhos.
     Sem pensar no que estava fazendo, obedeci e fechei os olhos.
     Sem enxergar, por um instante senti muito frio e uma sensação de estar em queda livre. Meus pensamentos começaram a se tornar claros, e comecei a imaginar que aquelas crianças eram anjos... aos poucos, comecei a apreciar aquela sensação de queda. Imaginava que aqueles belos anjos estavam me levando num grande passeio pelo céu, imaginando se aquilo afinal era um sonho, ou se eles estavam me levando para o além. Nem estava percebendo o tempo passar no instante em que já estava com os braços abertos, sorrindo de olhos fechados e começando a me sentir livre como um pássaro, deixando todos os problemas da minha vida e já me imaginando no céu, dando oi para São Pedro e me encontrando com o Waldo, o cachorro que morreu nos meus braços quando eu tinha oito anos de idade.
     Estava imaginando meus pés descalços aterrissando suavemente nas nuvens, mas então... PLAFT! Senti meu corpo se chocar no chão duro com tanta intensidade, que até quicou e rolou algumas vezes como uma pedra enorme caindo de um penhasco. Com o susto, abri meus olhos completamente arregalados e soltei um gritinho constrangedor, como o grunhido alto de um porco; porém no instante seguinte percebi que aquela queda intensa não havia me machucado, e o gritinho cessou tão rápido como veio.
     Completamente confuso, senti meus olhos arderem e percebi que estava num lugar todo branco e cheio de luz. Então, enquanto me levantava, mantive os olhos cerrados até me acostumar com tanta claridade.
     Tentando ver alguma coisa à minha volta, enxerguei um vulto que fui incapaz de distinguir. Meus olhos foram se acostumando, e comecei a perceber que o vulto se tratava de uma mesa de escritório com um computador, e atrás dela alguém sentado numa cadeira. A cada instante mais detalhes ficavam claros, e percebi que quem estava sentado ali era uma mulher, que também tinha asas como as duas crianças que vi antes. Ela tinha um cabelo verde bem excêntrico: meio raspado de um lado e com longos cachos ondulados do outro lado e na franja,  atrás parecia haver um “mullet” que veio direto dos anos 80. Ela parecia distraída com alguma coisa na mesa, nem notando que eu havia surgido ali depois de me esborrachar de uma altura impresionante,
     Ela escrevia lentamente algo num papel... com uma expressão severa e com a língua entre os dentes, como uma criança que está tentando escrever o próprio nome mesmo sem ter idéia de como fazê-lo. Reparei então nas coisas espatifadas na mesa. Carimbos destampados sujando tudo, papéis soltos quase caindo pela borda da mesa, enquanto os pesos de papel estavam em algum lugar dividindo espaço com pedaços de comida. No canto da mesa havia um teclado meio velho de computador e um monitor fino, com uma impressora velha do lado. E, perto dali, junto a um sanduíche mordido, estava um copo descartável com um resto de café. Era como se os dois estivessem se confortando no meio de tanta desolação. Fiquei reparando no sanduíche e no copo de café, com uma expressão vaga e sem saber o que pensar, quando percebi a moça olhar repentinamente para mim e abrir um enorme e lindo sorriso, de tal envergadura que enxerguei as covinhas nas suas bochechas. Nos seus olhos havia um misto de alegria e loucura. E eu retribuí com uma expressão de soberba ignorante, com a boca aberta.
     Ela então se levantou com tanta suavidade, se apoiando delicadamente na mesa, que nem percebi meu queixo descer cada vez mais e meus olhos ficarem como os de alguém hipnotizado. Então, quando ela contornou a mesa para vir até mim, sua roupa enroscou na quina da mesa e ela tropeçou nos próprios pés, caindo enquanto agitava furiosamente os braços no ar procurando um ponto de apoio; se agarrou em alguns papéis soltos na mesa e escorregou de testa no chão com os punhos cerrados segurando os papéis amassados, quase virando a mesa em cima dela.
   Ficou um segundo ali, parada no chão, como que sem saber de que forma sair dessa situação constrangedora. Então, ainda no chão, ela virou seu rosto para mim e me deu um sorriso amarelo, como um sorriso feito com as sobras da sua dignidade. Bem diferente do sorriso que me deu antes de se levantar da cadeira. Ficou de pé rapidamente, ainda sorrindo jocosamente, deixando os papéis amassados na mesa e arrumando o cabelo em seguida. Fiquei com um misto de dúvida, vergonha alheia e vontade de rir furiosamente, apontando o dedo indicador direto contra a sua cara.
     Agora, com ela à minha frente, pude reparar nas suas roupas: ela usava uma roupa branco-acizentada, sem mangas e com as pernas à mostra.
     -Bem vindo, Cerufra.
     Ela estendeu a mão, e eu, meio desconsertado, estendi a minha e a cumprimentei. Ela começou a balançar a minha mão e a falar ao mesmo tempo:
     -Meu nome é Elle e você está num dos escritórios no céu. Eu fui designada a te passar as suas missões.
     - Minhas missões? Que tipo de missões, exatamente?
     Falei enquanto desprendia algum esforço para que ela soltasse minha mão, enquanto imaginava se era raro ela receber alguma visita naquele escritório. Porém, ela não me soltava.
     -Não temos muito tempo, então vou explicar bem rápido – ela dizia, enquanto me puxava pela mão até a sua mesa – de hoje em diante você será um Ghost Captor. Você vai capturar fantasmas. Eles vagam pelo mundo dos humanos, e podem ter comportamentos prejudiciais, influenciando negativamente o ambiente onde estão, causando doenças, ou...
     - Espera aí. O quê?
     - O quê, o quê?
     - Como o quê? O que é isso?
     - Isso o quê?
     - FANTASMAS!! Que história é essa?! –falei rapidamente, já me enchendo de raiva.
     - Ah, fantasmas? – disse ela, sem perder a calma – Eles vagam pelo mundo dos humanos, e podem ter comportamentos prejudiciais, influenciando negativ...
     -NÃO! Que história é essa de Ghost Captor, capturar fantasmas?
     - Eu estava falando, quando você me interrompeu pela segunda vez – disse ela, tentando me olhar de um jeito meio cínico – o que exatamente você quer que eu explique?
     Quando ela disse isso, vi a oportunidade perfeita de explicar toda a maluquice que estava acontecendo:
     -O que aconteceu comigo? Eu estava sentado lendo um livro, e então um trem caiu do céu e me atropelou. Depois apareceu uma enfermeira que virou um monstro, depois aquela voz...
     Elle disfarçou um certo espanto, e soltou a minha mão. Sentou-se na sua cadeira e começou a digitar freneticamente no computador.
     - Sinto muito, não é meu departamento. Preencha este formulário, sim?
     “Lá se foi a oportunidade perfeita”, pensei, enquanto surgiu no ambiente o barulho irritante da impressora começando a funcionar. Balançando de um lado pro outro, começou a cuspir as folhas já impressas numa velocidade absurda, e depois de alguns segundos já havia uma pilha de dezenas de folhas prontas. Quando a impressora parou, Elle juntou todos os papéis e formou um bloco que devia ter no mínimo umas cinqüenta folhas. Ela me entregou tudo junto com uma caneta, e voltou a digitar freneticamente, sem tirar os olhos do monitor.
     Franzi as sobrancelhas e olhei para primeira folha do bloco. Estava escrito, em letras maiúsculas e intimidadoras:
     “FORMULÁRIO DE ADMISSÃO PARA A TURMA #235465/235533
DA SEGUNDA DIVISÃO DE GHOST CAPTORS
– ESTÁGIO BÁSICO –
Conforme a D. 6.754.846.543.356.b e D.449.813.234.564, anexos A(inteiro), B e C, de M a Z.2”
     Comecei a ler o resto do formulário. Começava com algumas perguntas como “Qual sua cor favorita?” “Durante o banho, que parte do seu corpo você ensaboa primeiro?”. Folheei o resto do formulário e só vi milhares de frases seguidas de interrogações, algumas com espaços pra responder embaixo, algumas com números e outras que pareciam não fazer o mínimo sentido, como a questão 358.a, que era simplesmente o desenho de um filhote de gato seguido das opções (  )SIM, (  )NÃO e (  )SÓ À TARDE.
     Sem querer pensar muito, peguei a caneta, respirei fundo e, depois de afastar um copo descartável esmagado na mesa, apoiei nela o formulário e comecei a preenchê-lo.
     Depois de algum tempo que fui incapaz de contar e lutando para manter alguma paciência, cheguei à uma parte pedindo para que eu especificasse que poderes gostaria de ter. Então, perguntei à Elle:
     -Poderes?
     - Sim.
     -Meus poderes?
     -Não, meus. - Sem tirar os olhos do monitor.
     -Seus poderes?
     -Claro que são seus poderes, – disse ela, suspirando - você vai precisar de poderes para enfrentar os fantasmas, não vai?
     -Lutar contra fantasmas?
     Elle parou de digitar e olhou para mim, sem dizer uma palavra.
     - Fantasmas? – perguntei novamente.
     Ela riu como um idiota, mostrando os dentes e cerrando os olhos, então disse:
     - Você não leu o manual?
     - Manual?
     - Não se preocupe com o tempo você aprendera tudo
     . Elle continuou:
     - Quando for capturar seu primeiro fantasma você terá apenas seus poderes, ou seja, será só você e o fantasma. Se tiver sucesso, nas próximas vezes terá mais duas opções além de lutar sozinho: ordenar um fantasma seu lutar contra, ou se fundir com um dos seus fantasmas. De início você deve escolher três habilidades.
     Deslumbrei-me com a possibilidade de poder escolher poderes fantásticos. Era tudo o que um cara de dezesseis anos poderia querer na vida. Mesmo sabendo que era um sonho, comecei a imaginar que tipo de poderes escolheria, ao mesmo tempo em que ainda pensava em ficar nú.
Então preenchi no formulário nos espaços designados. No primeiro campo coloquei “congelar meus inimigos com espinhos de gelo”, pois sempre gostei de gelo e sempre escolhia personagens que tinham esse tipo de poder nos jogos. Para o meu segundo poder, escrevi: “fazer uma espada de gelo que além de cortar, dispare um raio congelante”. E, para o terceiro poder, quis fazer o que todos fariam: Escrevi em letras maiúsculas e bem separadas: “V  O  A  R” e até desenhei umas asinhas de um lado e do outro da palavra, só pela onda mesmo. Fechei o formulário, larguei a caneta e entreguei à Elle com um sorrisinho idiota no rosto, completamente orgulhoso dos poderes que escolhi.
     Ela começou a ler, e já na primeira folha ficou com uma expressão estranha, levantando uma sobrancelha. Ela começou a ler as respostas e digitá-las no computador, carregando os dados no sistema, ao mesmo tempo em que bebia um copo de café. Eu fiquei parado pensando se não seria mais fácil eu responder oralmente desde o início, quando ela se atrapalhou com o copo e derramou uma boa quantia numa das páginas:
     - Puxa, que coisa, sorte que ainda dá pra ler... nós não íamos ter tempo de refazer todo o formulário.
     - O quê?
     -Ah! Nada não. – disse ela, fazendo o mesmo sorrisinho amarelo de antes – Você precisa me dizer as palavras-chave que ativarão seus poderes.
     Então, fiquei deslumbrado de novo. Quer dizer que eu podia escolher a palavra pra ativar meus poderes, como os personagens fazem com os golpes nos videogames? Incrível!
     - A primeira vai ser Glacial Fury – respondi, já me imaginando com uma pose de fodão, o vento batendo no rosto, a mão estendida e gritando o nome do golpe como um personagem de anime – a segunda vai ser Ice Blade – continuei, e então, quando ia dizer a terceira palavra-chave, algo começou a fazer cócegas no meu nariz – ATCHOU!
     - Procedimento concluído. – disse Elle.
     Assustado, respondi:
    - Não! A terceira palavra não era aquela! Foi um espirro.
     - Lamento, já carreguei no sistema. – ela respondeu, com uma cara de piedade fingida. Me veio na cabeça como tudo aquilo parecia com o serviço público.



     Então, em algum lugar daquela sala branca uma porta se abriu e os dois anjos de antes reapareceram e começaram a se apresentar.
     - Eu sou Aioloel e ele Poiel. – disse, os dois  fazendo uma breve reverência - Somos gêmeos e somos imbatíveis. Somos do “balaco-baco”. – falou rapidamente, com uma expressão arrogante e cômica de se ver numa criança.
     - E temos o prazer de lhe dizer que é uma honra para um Zé Ruela como você ter anjos da guarda como nós – disse o outro, dando um passo à frente.
     Depois dessa apresentação educada, comecei a olhá-los melhor e vi que eles usavam um penteado tipo “mocinho de filme dos anos 50 e 60”, meio mauricinho. Nada de cabelo encaracolado de anjo de igreja barroca. Arte barroca devia ter saído de moda faz tempo, pelo visto. Aioloel tinha o penteado virado pra esquerda, e Poiel pra direita. Percebi que a roupa deles não era branca, mas também meio cinza, como a de Elle, mas não tinham as pernas à mostra. Tinham também uma insígnia em forma de asa no pescoço. Ninguém estava usando aqueles vestidos brancos de anjo. Pelo jeito aquilo também estava fora de moda.
     - Me acompanhe por este corredor – Elle disse, se levantando, e foi caminhando até abrir outra porta. Corri para acompanhá-la, dando um tchauzinho para Aioloel e Poiel, mas eles nem responderam enquanto estavam de braços cruzados, fazendo cara de garoto malvado de filme dos anos 50.
     Como tudo era de um branco muito claro, e mal pude reparar no que estava nas paredes, e mesmo que existiam outras portas no corredor. Em algum ponto Elle abriu mais uma porta, e entramos numa sala também branca. No meio da sala estava um vidro como uma vitrine, e atrás, um manequim masculino com um uniforme que parecia ser de lycra, bem coladinho no corpo. Como de um super-herói. Era todo branco com alguns detalhes azuis, e alguns pequenos símbolos como flocos de neve também em azul, no peito. Achei aquele o uniforme mais lindo que já havia visto.
     - Parece que você gostou... – disse Elle reparando na minha cara de felicidade e depois dando aquela risada estranha e idiota de antes, cerrando os olhos. Pela primeira vez pensei em como aquilo me dava um pouco de medo.
     - Mais do que você imagina... – respondi.
     Ela tirou de um bolso um pequeno aparelho em forma de cristal, com um botão no meio e detalhes de asas abertas no fundo. Ela abriu a vitrine e apertou o botão,  o uniforme que estava no manequim foi completamente sugado pelo aparelho, sobrando apenas o manequim. Reparei que as asas no cristal haviam se fechado. Elle abriu minhas mãos e colocou nelas o pequeno aparelho.
     - Esse é um Captor Cloth. Serve para guardar seu uniforme e transformar seu corpo carnal em um corpo espiritual, pra você lutar de igual a igual com os fantasmas. Mas a transformação é temporária, e quando o tempo terminar o uniforme volta para o cristal e o seu corpo volta a ser carnal.
     -Temporária? E quanto tempo dura?
     Elle suspirou e fez uma cara de tédio, como se eu já devesse saber de tudo aquilo e ela estivesse fazendo um enorme favor em repetir:
     - Quanto mais alto seu nível, mais tempo durará o efeito. Atualmente seu nível deve ser o “gamma”, o terceiro, o que equivale a mais ou menos uma hora. Aqui, prove o uniforme.
     Ela colocou o Captor Cloth no meu peito, e, segurando na minha outra mão, fez com que eu apertasse o botão do aparelho. Fechei os olhos e sorri como um bobo, me imaginando com o uniforme salvando as meninas gostosas da escola dos feiosos fantasmas com vestido velho e cara de cobra. A transformação deve ter sido meio ridícula, pois eu comecei a ouvir umas risadas em volta, e então abri os olhos. Elle estaba tampando a boca com as mãos, virei e o Aioloel e Poiel também estabam fazendo o mesmo. Pedi a Elle um espelho, cuando vi, meu uniforme estaba tao apertado que eu parecia que iria expludir.
     Todos ficaram rindo de mim vi Aioloel e Poiel na porta rindo a ponto de quase chorar.
     Minhas bochechas ficaram vermelhas e abaixei um pouco a cabeça, envergonhado. Estava mesmo um pouco acima do peso... bem, meio acima... ok, eu estava gordo, com 1,77 e 86 quilos. E aquele uniforme de lycra marcava os pneus que circundavam minha cintura.
     - Posso desenhar meu próprio uniforme? – falei tão rápido para Elle que fiquei impressionado por ela ter entendido, fazendo “sim” com a cabeça. Ela me deu papel e lápis.
     Comecei, então, a imaginar que tipo de uniforme eu gostaria de ter. Fiz uma calça de cowboy, com bolsos grandes para por as coisas, pois não queria ter um cinto de utilidades. Fiz um par de botas pretas e, como teria poder de gelo e me considerava um nerd super otaku, desenhei uma camiseta branca com o kanji  kori que significa “gelo”, com um sorrisinho no rosto. Mostrei o desenho para Elle, que desenhou também uma jaqueta azul, que aprovei, já que eu poderia sentir frio com os meus poderes de gelo. Desenhou também uma bandana, não sei pra quê, mas gostei também e aprovei, dizendo que deveria ser de couro para ela não se soltar enquanto eu estivesse voando ou lutando.
     Elle perguntou se eu queria mais alguma coisa, e imaginei se não daria pra mudar meu cabelo também. Perguntei se era possível, e ela disse que sim; então desenhei junto com a bandana o cabelo que eu queria: azul, médio e liso, e mesmo sem ter certeza se funcionaria, desenhei dois pontinhos azuis embaixo do cabelo pra ver se meus olhos ficariam azuis também. 



     Entreguei à Elle dizendo que havia terminado, e ela colocou o papel com o desenho na impressora. Apertando um botão, a impressora começou a funcionar como se fosse imprimir algo, sugando o papel.
     Elle pegou o Captor Cloth e colocou na maquina, se acenderam várias luzes no aparelho que servia de suporte e falou:
     - Agora experimente como ficou.
     Apertei o botão e o uniforme saiu dele, agora sim estabv com meu cabelo e meus olhos azuis e o uniforme que eu mesmo desenhei.
    - Onde está seu UVC? – perguntou Aioloel, dando um chutinho nos meus pés e fazendo cara de mau. Talvez estivesse bravo pois não poderia mais me sacanear depois que eu colocasse o uniforme novo.
     -O que é isso? – respondi.
     -Unidade de Visão Incorporada, você não leu no manual?
     Fiz cara de paisagem, e ele respondeu:
     - São óculos que tem um comunicador incorporado e que te permitem falar com qualquer membro da sua equipe, além de poder enxergar os fantasmas. As funções evoluem conforme seu avanço nos níveis, e você pode medir os seus níveis com o Captor Phone.
     Elle voltou de algum lugar com uma caixa, e nele estavam um par de óculos escuros redondos que pareciam do John Lennon (e de um famoso bruxo que não posso citar por causa dos direitos autorais) e um celular que a primeira vista parecia ser comum, e me entregou.
     - Este celular pode parecer comum, mas através dele você vê seus pontos de experiência, suas missões, pode se comunicar com qualquer Ghost Captor, tirar fotos de fantamas, entre outras coisas. Também funciona como um telefone celular normal. Seria bom você usá-lo longe das vistas das pessoas normais, pois você pode não saber que tipo de pessoas podem estar à sua volta, além de algumas pessoas enxergarem coisas sobrenaturais por natureza.
     Coloquei os óculos e peguei o celular. Elle, então, pegou o Captor Cloth e fez o mesmo procedimento de antes, sugando o uniforme do manequim. Colocou na minha mão, e pediu que eu provasse o novo uniforme. Coloquei o Captor Cloth no meu peito, apertei o botão e, depois da transformação, estava no meu novo uniforme, vendo meu reflexo no vidro onde estava o manequim. Os cabelos pareciam reais, as botas estavam do jeito que eu havia imaginado e, abaixando um pouco os óculos, vi os meus olhos de uma cor azul brilhante. Me sentia mais extremamente poderoso e legal naquela nova roupa. Me veio na cabeça se eu não poderia ter me desenhado mais magro também, já que foi possível ter mudado o cabelo e os olhos; mas deixei isso de lado pois já estava me achando fantástico o suficiente. Resolvi ser “Fofinho Com Orgulho”
     - Bom, parece que agora você está pronto pra ação, não está? – disse Elle, enquanto Aioloel e Poiel colocaram as mãos nos meus ombros.
     Comecei a sentir a mesma sensação de antes, e só tive tempo de fechar os olhos e cerrar os dentes, com a voz de Elle sumindo no ambiente e eu me sentir em queda livre outra vez.
     A queda durou bem menos tempo e me mantive mais consciente dessa vez. Quando percebi que o chão estava chegando, me preparei para o impacto, e pousei espetacularmente com os dois pés no chão, me ajoelhando e me apoiando com umas das mãos. O asfalto rachou com estalidos com a força da queda, enquanto eu abria os olhos. Estava no mesmo lugar de antes, na frente do hospital, à noite. Ainda estavam lá os cães do inferno despedaçados e, vindo na minha direção, o fantasma com rosto de cobra, com o seu grito apavorante.




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